• Chá de Leitura

À LUZ DAS PALAVRAS


Relatando vozes, imagens e impressões, Geísa Galvão lança luz sobre questões importantes do nosso tempo.

Nascida no interior do Espírito Santo, Geísa Galvão é escritora e professora da rede municipal de Linhares (ES), onde atua há mais de 10 anos. Desde a sua participação na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2016, ela não parou mais de escrever. Além de 4 obras infanto-juvenis, publicou os relatos Linha de Chegada e Lama ao Mar, abordados nesta entrevista. Acompanhe, a seguir, a nossa conversa com a autora.


BLOG > Há quanto tempo você escreve? Teve alguma motivação para isso?

G. GALVÃO > Escrevo desde da preparação do meu TCC na área do magistério em 2007. Um trabalho que me fez pensar na importância da leitura como instrumento de transformação social pela abertura de caminhos para o sucesso pessoal e profissional, os quais todo sujeito tem o direito.


BLOG > Os seus livros Linha de Chegada e Lama ao Mar são relatos. Quando e por que você passou a se interessar por esse gênero textual?

G. GALVÃO > Eu sempre gostei de conhecer novos lugares e pessoas. E como todo lugar tem a sua história, eu quis registrar a beleza e a energia desses lugares, trazer algumas reflexões sobre a preservação da natureza, além de produzir conteúdo para as minhas aulas. No sentido de que, quando a professora pratica o que profere, isso facilita para que o alunado entenda o significado da ação.


BLOG > O seu livro Linha de Chegada traz como tema a imigração italiana na região serrana do Espírito Santo. Nos dias atuais, esse assunto tem sido abordado como merece? Há espaço suficiente, na literatura e na imprensa, para a história dos imigrantes italianos?

G. GALVÃO > Tenho a impressão de que o tema já foi muito mais divulgado no país. Tanto nas telenovelas quanto nas reportagens a respeito. Porém, a cultura italiana que se vê no Espírito Santo é pouco explorada. Acredito que seja pela demora no desenvolvimento das rodovias de acesso às montanhas, visto que as cidades do interior eram menos movimentadas. De uns tempos pra cá, os próprios capixabas desejam conhecer mais da região serrana para fugir do calor escaldante, sentir de perto alguns dos seus costumes, e provar os pratos típicos que relembram com saudosismo os seus antepassados.


"Eu sempre gostei de conhecer novos lugares e pessoas. E como todo lugar tem a sua história, eu quis registrar a beleza e a energia desses lugares, trazer algumas reflexões sobre a preservação da natureza, além de produzir conteúdo para as minhas aulas."


BLOG > Em Linha de Chegada, você relata suas impressões sobre o “Caminho do imigrante”. Como surgiu esse evento e como ele contribui para valorizar a história da imigração italiana no seu estado?

G. GALVÃO > Surgiu com a intenção de relembrar o caminho, antes, “picada” pela floresta que ligava uma cidade à outra, perfazendo 30 quilômetros. Essa picada levou cerca de dois anos para ser concluída. Ao final, os imigrantes receberam do governo seus lotes de terra como parte do pagamento. Ainda assim, o lugar não oferecia estrutura adequada para o desenvolvimento e muitos imigrantes acabaram desistindo de colonizar. Os mais teimosos insistiram, permaneceram e alcançaram o sucesso. Além disso, o evento visa unir o lazer, esporte, cultura, e o cuidado com o meio ambiente. Por isso, é realizado sempre no dia 1º de maio como reconhecimento da força do trabalho para o desbravamento da região.


BLOG > Além de abrigar uma das maiores colônias italianas do Brasil, o Espírito Santo possui o maior percentual de ítalo-descendentes do país. Essa geração ainda preserva os costumes e tradições dos seus antepassados?

G. GALVÃO > Sim. A cidade de Santa Tereza possui o título de primeira colônia italiana do Brasil. E seus visitantes aumentam a cada ano, sobretudo, para conhecerem as suas famosas vinícolas. Em contrapartida, há um desfile de carros alegóricos chamado de “Carrettella Del Vin”, onde se comemora a colheita da uva e o processo de preparação do vinho, entre outros. Com seus trajes típicos, os moradores preparam músicas, danças, concurso de beleza... Já na cidade de Venda Nova do Imigrante, além de outros costumes, comemora-se a festa da polenta feita num tacho gigante, e todos aguardam ansiosos o momento da despeja conhecido como o “Tombo da Polenta”. As demais cidades também comemoram com orgulho o dia do imigrante italiano em 21 de fevereiro.


BLOG > No dia 5 deste mês, o desastre ambiental de Mariana (MG) completou cinco anos. Em 2015, a barragem de Fundão se rompeu, liberando um mar de lama que devastou aquela região, causando mortes e destruição. Em seu livro Lama ao Mar, publicado em 2019, você entrevistou uma família de pescadores que vivenciou aquela tragédia. Como essas pessoas avaliam as medidas tomadas pela Vale, empresa responsável pela barragem, para reparar os danos ambientais e indenizar as famílias da região?

G. GALVÃO > Infelizmente, os estragos foram muitos. Isso impactou as famílias, o entorno e o leito do nosso grande Rio Doce, que continua poluído. Como a foz do rio atinge uma grande área de mar, os pescadores da região de Vila de Regência ficaram desolados, além do turismo que foi diretamente afetado. Na época, a Vila recebeu uma base de apoio aos moradores. Depois de um tempo, as famílias foram indenizadas e continuam recebendo o suporte pela Fundação Renova, que visa reparar os danos causados. Embora pude constatar de perto que não há indenização capaz de apagar da memória dos atingidos a tamanha dor ao ver a lama passar.


BLOG > Os responsáveis pela tragédia de Mariana (MG) foram inocentados dos crimes de homicídio e lesão corporal. Para a Justiça, as mortes em Mariana (MG) foram causadas pela inundação provocada pela lama da barragem. A impunidade venceu? O que você pensa a respeito disso?

G. GALVÃO > A justiça foi flexível demais. Não se brinca com uma vida, muito menos com várias delas.


BLOG > Como professora da rede municipal de Linhares (ES), você compreende o valor da educação na formação de pessoas cidadãs, responsáveis pelo lugar onde vivem. Hoje, mais do que no passado, essa formação cidadã se faz necessária, por conta dos desastres ambientais e humanos que têm assolado o nosso país: a contaminação dos rios pela mineração, as queimadas e incêndios criminosos na Amazônia, as enchentes no Rio de Janeiro etc. As escolas públicas estão preparadas para lidar com essas questões?

G. GALVÃO > Decerto que ainda trabalhamos dentro das condições possíveis, e não ideais. Ainda assim, é notório que a educação pública alcançou um pequeno avanço. Por outro lado, boa parte dos brasileiros insistem em manter no seu cotidiano o chamado discurso fatalista de que “No Brasil tudo acaba em pizza” e que não vale o esforço para melhorar. E é aí que precisamos agir e mostrar que o nosso país tem sim condições de fazer mais, pois somos um povo forte, inteligente e criativo. Só precisamos canalizar todas essas qualidades na direção certa.


BLOG > Nós estamos no período das eleições municipais. Neste mês, serão eleitos os prefeitos, ex-prefeitos e vereadores que vão gerir as cidades brasileiras nos próximos 4 anos. Que conselho você dá aos eleitores de todo o Brasil?

G. GALVÃO > Que possam votar conscientes. Avaliar as propostas e o histórico dos candidatos, mesmo dos iniciantes, porque “Suas escolhas revelam o caminho antes percorrido.”




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FICHA DAS OBRAS



Título: Linha de Chegada

Edição: 1

Ano: 2019

Número de páginas: 56


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Título: Lama ao Mar

Edição: 1

Ano: 2019

Número de páginas: 69


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