• Chá de Leitura

ENTRE O SONHO E A REALIDADE

Atualizado: 20 de Nov de 2020



O paulista Leonardo Fatari estreia na ficção, abalando as nossas certezas: afinal, existe um limite entre o sonho e a realidade?

Formado em Produção audiovisual, Leonardo Fatari é produtor de conteúdos, roteirista e escritor. Além dos trabalhos voltados para a televisão, o cinema e o teatro, ele publicou, este ano, seu primeiro livro de contos: Sonhos Concretos e Realidades Surreais. Leia, na sequência, a entrevista concedida pelo autor ao Chá de Leitura.


BLOG > Quando você despertou para a literatura?

FATARI > Desde criança, minha mãe ficava até tarde da noite lendo comigo, principalmente no período em que eu estava sendo alfabetizado. Acabei pegando gosto, e as histórias em quadrinhos foram muito importantes na minha formação como escritor e leitor.


BLOG > Você já leu alguma história que te marcou profundamente?

FATARI > Na fase adulta não, mas até hoje me lembro da primeira e única vez em que fiquei triste lendo. A história era sobre um menino que crescia de maneira exagerada dia após dia, sem parar, até o momento em que ele não cabia mais em sua própria casa. Não me lembro do nome desse livro, mas a cena final era o menino pondo-se em pé e destruindo o teto da casa, e ele ia embora sozinho pela estrada de terra, deixando a mãe sozinha em casa.

Na época, eu era criança e interpretei a história de maneira literal. Só depois de adulto, pensando na vida, eu entendi sobre o que era aquela história: era sobre amadurecimento, e como nós não cabemos mais em certos lugares depois de crescermos.


BLOG > Nascido no século passado, o Realismo fantástico é um movimento literário que, ainda hoje, fascina leitores do mundo todo. Como você descobriu essa literatura e por que escolheu ser um dos seus representantes?

FATARI > Na verdade, não me considero representante de nenhuma escola literária. Na minha percepção, os representantes de qualquer escola/movimento estão em outros lugares, como passado, presente e futuro, e eu só estou aqui, por enquanto. Referente à escolha, adotei para o livro a realidade inacreditável influenciado pelo ano em que estamos vivendo, 2020, um dos anos mais absurdos dos últimos tempos.

E meu primeiro contato com o Realismo fantástico vem sem eu ao menos saber do que se tratava, através de Memórias Póstumas de Brás Cubas, que traz elementos importantes de Realismo mágico/fantástico antecedendo o próprio movimento literário em si. Somente depois dessa obra de Machado de Assis e de outras cinematográficas, que fui pesquisar sobre o Realismo fantástico.


"Uma vida perdida não retorna, não há espaço para erros, o erro de tirar uma vida não pode ser reparado. E as pessoas perdem essa percepção pelo distanciamento da realidade, seja pela desigualdade social, pela alienação ou pela revolta."


BLOG > No conto “Pena de morte”, a personagem Cecília, uma juíza, precisa fazer uma escolha: votar contra ou a favor da pena de morte. A responsabilidade dessa escolha faz com que ela questione sua própria trajetória profissional, pondo em xeque vários anos de trabalho e empenho na busca pela justiça. Assim, um dilema existencial é o tema de fundo sobre o qual se desdobra o fantástico, o absurdo. Essa é uma característica recorrente na sua prosa?

FATARI > Com certeza, e nesse conto apresento esse tipo de problema, pois na vida real não se tem várias chances como num jogo de videogame. Uma vida perdida não retorna, não há espaço para erros, o erro de tirar uma vida não pode ser reparado. E as pessoas perdem essa percepção pelo distanciamento da realidade, seja pela desigualdade social, alienação ou pela revolta. E o distanciamento se fortalece nos tempos de hoje através das redes sociais, é o abismo entre ideia e fala, e entre a fala e ação, hipocrisia. Respeito e entendo quem pensa diferente, mas a pena de morte é algo delicadíssimo. Muitas pessoas se dizem favoráveis a ela, mas, se dessem a essas pessoas o dever de dar a injeção letal no condenado, com certeza a maioria seria incapaz de fazê-lo. É fácil ser favorável à pena de morte desde que os outros apertem o “gatilho”.


BLOG > O conto “O homem sem asas” narra o drama de Silvio, um homem obcecado por uma ideia: apanhar o Entufado-Baiano, pássaro raro e desconhecido que ele viu quando era menino. Nessa história, Silvio cria uma armadilha para apanhar a ave, mas acaba sendo vítima de outra armadilha, da qual não consegue se libertar. O castigo assume, aqui, a forma de uma lição exemplar, a paga devida a um homem que prendia e colecionava pássaros. Em que medida o castigo e a punição estão presentes na sua obra? São elementos decisivos, ou assumem um lugar secundário nas narrativas?

FATARI > O castigo e a consequência estão presentes nesse livro, em alguns contos são decisivos e em outros, secundários. Nesse conto em questão, eu apresento o homem muito presente na nossa sociedade, o homem que não sabe amar, o homem que prende aquilo que “ama”. É uma questão real do homem que prende a mulher em casa, que reduz os sonhos dos filhos, o homem que não vive e não deixa viver.


BLOG > Você já se inspirou em algum livro ou filme para escrever?

FATARI > Sim, inclusive estou trabalhado agora num roteiro de cinema e num novo livro ficcional inspirado em um documentário brasileiro. Não vou revelar agora o que é, mas, possivelmente, estará pronto em abril do ano que vem.



Capa do livro Sonhos Concretos e Realidades Surreais



BLOG > Hoje, o Realismo fantástico ainda influencia a literatura, e os grandes nomes dessa vertente, como G. García Marquez e J. Luis Borges, ainda são lidos e apreciados. Em sua opinião, a que se deve esse prestígio?

FATARI > São escritores de histórias que nos levam a um cenário diferente a princípio, coisas que, enxergadas com olhar comum ou simplesmente não vistas, são acentuadas pelo elemento mágico, traduzindo a história e a realidade, provocando a percepção do leitor não apenas para o livro, mas também para a vida. Por exemplo, o cativante 100 Anos de Solidão, que oferece novas percepções ao leitor a cada releitura.


BLOG > Este ano foi divulgada a 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, coordenada pelo Instituto Pró-Livro (IPL). Segundo a pesquisa, houve no Brasil uma diminuição de 4,6 milhões de leitores. Um cenário desolador, portanto. Em sua opinião, é possível mudar essa realidade?

FATARI > É possível desde que os responsáveis sanem muitos problemas da educação no Brasil, e proporcionem um ambiente de incentivo à leitura e a novos escritores.


BLOG > Por que o seu livro merece um lugar na estante do leitor?

FATARI > Rodrigo, antes de te responder gostaria de te agradecer pelo espaço e pela oportunidade de me comunicar com os seus leitores. É muito importante essa iniciativa do blog de incentivar a leitura de livros de autores independentes, meus parabéns!

Voltando à sua pergunta, sinceramente não sei como respondê-la diretamente. Peço a sua licença para escrever aqui a sinopse do meu livro, e deixo a cargo do público decidir o merecimento e se o quer ou não em sua estante.

“Todos podem questionar a realidade, e num certo momento o farão, é apenas questão de tempo, mas não são todos que podem transcendê-la. Dormir e ter uma experiência real, acordar e viver numa realidade de mentiras, ironias da vida. Sonhos Concretos e Realidades Surreais traz aspectos desses universos, abordando diversos problemas que nos aniquilam enquanto seres e sociedade. Em 10 diferentes histórias, é possível ver personagens sufocados pelas engrenagens da vida e do tempo, que quebraram as barreiras do concreto, alguns que fizeram uma boa aventura, que até realizaram seus sonhos, e outros que se afogaram neles.”




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FICHA DO LIVRO



Título: Sonhos Concretos e Realidades Surreais

Edição: 1

Ano: 2020

Número de páginas: 104

ISBN: 978-65-000-8760-4


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