• Chá de Leitura

FILOSOFIA PARA O DIA-A-DIA


Com uma linguagem acessível, Márcio Andrade Lyrio Baldes convida o leitor a enxergar a realidade sob um olhar privilegiado - o da filosofia.

Com mais de 8 anos de docência na rede pública do Rio de Janeiro, Márcio Andrade Lyrio Baldes é especialista em Gestão Escolar pela Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC), licenciado em Geografia pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF) e em Pedagogia pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Recentemente, ele publicou os livros Filosofia Compacta para Iniciantes e Filosofia em Imagens, abordados nesta entrevista. Leia, a seguir, a nossa conversa com o autor.


BLOG > Quando e por que surgiu a filosofia?

M. BALDES > Não existe um consenso acerca de uma data de surgimento da filosofia. O mesmo posso pensar sobre a sua origem geográfica. As obras filosóficas tidas como mais expressivas começaram na Antiguidade, na Grécia e também em outros espaços. Acredito que a filosofia surgiu a partir do espanto diante do desconhecido. A admiração pelo saber mais profundo. Essa busca sempre esteve presente na humanidade. A sistematização do pensamento filosófico teve impulso na Grécia Antiga, mas não devemos desprezar a filosofia chinesa, indiana e de outros povos.


BLOG > A filosofia e a ciência são irmãs? Qual a relação entre ambas?

M. BALDES > O pensamento filosófico serviu de base para a formação da ciência moderna e ainda a tem influenciado. É o alicerce, a sustentação, o substrato essencial. Gosto de usar o exemplo da árvore. Imagine que a filosofia é o tronco da árvore e os galhos representam as inúmeras ramificações da ciência. Na verdade, a filosofia é a “alma” da árvore, está presente na raiz, no tronco e nos galhos. O pensamento filosófico não está condicionado por áreas específicas e fechadas e por objetivos de pesquisa muito particulares. A filosofia é mais geral, a ciência é mais especializada. A primeira tem mais liberdade e não tem o compromisso com resultados utilitaristas e mercadológicos. A segunda tem mais esse compromisso com comprovações e experimentações, é mais condicionada pelos objetivos concretos e imediatos da sociedade.


BLOG > Você publicou o livro Filosofia Compacta para Iniciantes. Esse título parece contradizer uma opinião do senso comum: a de que a filosofia é um saber complexo e enigmático, acessível apenas aos intelectuais. O que o senhor pensa a respeito disso?

M. BALDES > É fundamental desfazer esse mito de conhecimento complexo e enigmático. É um conhecimento como qualquer outro, que preza pelos fundamentos racionais e pela sistematização do pensamento. Tem seus objetivos e métodos; no entanto, o tratamento das informações é diferenciado. Existe um cuidado maior com as afirmações; os problemas filosóficos estão, muitas vezes, situados numa zona de dúvida (interface entre o conhecido e o desconhecido) e estes mesmos problemas são objetos de reflexão contínua e inconclusiva. Por isso, as pessoas leigas costumam pensar que a filosofia não serve para nada ou acreditam ser muito complexa. Fomos educados pela sociedade capitalista, pela escola, a acreditar que o conhecimento tem sempre de ter um sentido prático, tem de ser útil para alguma finalidade prática. A filosofia trata de questões cotidianas e práticas, mas seus propósitos são mais amplos e ousados. Escrevi esse livro como uma conversa aberta, sem pretensão de esgotar os assuntos. Não é um manual didático, é reflexão e apontamentos teóricos que considero importantes, sem detalhamentos cansativos e pouco agregadores de sentidos.



"Fomos educados pela sociedade capitalista, pela escola, a acreditar que o conhecimento tem sempre de ter um sentido prático, tem de ser útil para alguma finalidade prática. A filosofia trata de questões cotidianas e práticas, mas seus propósitos são amplos e ousados."


BLOG > Apesar do nosso progresso técnico e científico, nós seres humanos não sabemos tudo. Em algum momento, todos nos perguntamos sobre o sentido da vida, de onde viemos e para onde vamos, como surgiu o mundo, etc. A filosofia pode nos ajudar nesses questionamentos?

M. BALDES > A filosofia não dá respostas prontas. Ela ajuda a pensar com maior clareza sobre os problemas humanos e da natureza. Progredimos muito tecnicamente, porém, ainda continuamos com inquietações existenciais persistentes. Parece que estamos esgotados com tanta violência, miséria, ignorância e descaso político. É o cenário ideal para a expansão da filosofia, isto é, um período de crises sistêmicas. Estamos acompanhando uma explosão de conteúdos ditos filosóficos sendo produzidos para canais do Youtube, livros de autoajuda, filosofias para o cotidiano, associações para discutir a vida filosoficamente. A questão filosófica salta o campo universitário e ganha espaço na rede social, nas palestras motivacionais etc. Isso acontece por conta do enorme vazio de sentido. A modernidade não cumpriu suas promessas de progresso e evolução pela razão ou racionalidade. A filosofia ajuda sim; principalmente, recorrendo aos grandes pensadores e aos cursos e livros mais confiáveis.


BLOG > Nos dias atuais, as novas aplicações da ciência – reprodução de clones idênticos, modificação genética de alimentos, pesquisas com células-tronco embrionárias, etc – têm suscitado dilemas éticos, de ordem moral. Como a filosofia lida com esses desafios?

M. BALDES > Como afirmei anteriormente, a filosofia tem mais liberdade ou mobilidade em comparação com a ciência. O filósofo tem uma visão mais panorâmica e sem maiores condicionamentos de área. Entendo que a filosofia tem suas áreas: epistemologia, metafísica, entre outras, porém, diferencia-se da ciência, na medida em que consegue se mover por diferentes áreas do conhecimento. Se, por um lado, o cientista está muito focado em atender às demandas da sociedade e da economia, têm prazos, metas a serem cumpridas, compromissos de produzir algo material. O filósofo tem mais a função de pensar sistematicamente sobre diferentes assuntos. Essa visão mais ampla, mais desinteressada, faz com que o mesmo tenha, talvez, maior moderação ou capacidade de discernir diante de dilemas sociais.


BLOG > Atualmente, usa-se a expressão “filosofia oriental” para abarcar uma vasta gama de doutrinas e conhecimentos de origem milenar, que provêm do Oriente. Esses saberes podem ser chamados de filosóficos?

M. BALDES > Não existe consenso acerca do conceito de filosofia. É algo aberto, e não podemos cair no academicismo e nem na vulgarização da filosofia, ao ponto de ser comparada com religião por desavisados. Penso que os povos orientais têm pensamentos consistentes sobre ética e outros problemas de ordem filosófica, então não vejo problema em considerar isso como filosofia. Agora, é fundamental distinguir o conhecimento filosófico mais sistematizado daquele que tem o propósito motivacional ou de aconselhamento. Existem diferentes correntes e tradições que devem ser respeitadas e não necessariamente banalizam o saber filosófico.


BLOG > Para muitos professores, sobrecarregados com o trabalho, selecionar materiais audiovisuais e adequá-los aos conteúdos escolares continua sendo um desafio. Como o seu livro Filosofia em Imagens pode ajudá-los nessa tarefa?

M. BALDES > Parece simples escolher um filme e exibir para os alunos. Afirmo que não é bem assim, já tive experiências desagradáveis. A dificuldade maior é adequar o filme ao perfil da turma. Não é a leitura do meu livro e de outros que vai fazer o professor acertar. É algo que aprendemos fazendo, testando, errando, observando os alunos. Minha proposta com esse livro foi reunir algumas análises de alguns filmes e fazer algumas sugestões para subsidiar o trabalho do professor. Não sou crítico de cinema, tampouco cineasta. Sou apenas um professor defensor do uso de recursos audiovisuais na sala de aula. Acredito nesta forma de trabalhar e quero compartilhar com colegas. Sei das dificuldades de muitas escolas, mas creio que o prazer pelo trabalho vem muito das experiências mais inovadoras. Assim rompemos um pouco mais a rotina. Quando acertamos no filme para uma turma específica, garanto que o resultado é mais satisfatório. Não apresento modelos de uso, como um manual, apenas apresento análises de filmes e sugestões pedagógicas de uso em sala de aula.


BLOG > Em que situação o uso de vídeos e filmes em sala de aula pode, ao invés de auxiliar, boicotar a aprendizagem? É possível adequar esses recursos às exigências do ensino da filosofia sem, contudo, negligenciar a reflexão e o raciocínio crítico?

M. BALDES > Eu utilizo apenas um filme por bimestre, geralmente no final do mesmo. Quando possível, faço uma edição, ou apenas escolho com o tempo e as cenas adequadas às circunstâncias. Não é receita de bolo, cada um tem uma forma de usar. Penso ser fundamental o conteúdo da aula estar o mais explícito possível no filme, isso ajuda na compreensão. Nada de filme legendado, não faz parte da cultura da maioria dos brasileiros. Penso ser importante dialogar com a realidade do jovem. Se tiver o casamento do entretenimento com a reflexão, é o ideal. Costumo debater no final do filme e peço trabalho para os alunos entenderem o processo como, de fato, uma aula. Ainda vejo nas escolas uma dificuldade para entender a exibição de filmes como aula. As pessoas estão muito acostumadas com as aulas tradicionais, o professor transmite o conceito e o aluno recebe passivamente. O aprendizado vem com emoção, nisto os filmes ajudam. O conteúdo deve ser passado de maneira mais significativa, deslocando o foco do formalismo excessivo. Assim, é uma forma de desconstruir a ideia de que a filosofia é um conhecimento chato e difícil. Agora, não dá para descuidar e deixar escapar a oportunidade de fazer uma boa reflexão. Com o tempo, o aluno entende que você está exibindo filme com propósitos educativos.


BLOG > A Lei nº 11.684/2008 tornou obrigatório o ensino da filosofia e da sociologia no ensino médio. Como você avalia o impacto dessa lei na educação escolar, de modo geral? O que deve ser melhorado, ou revisto?

M. BALDES > Muitas vezes, percebo uma certa imaturidade dos alunos para estudar conteúdos mais críticos, até mesmo no ensino médio. Parece que as abordagens factuais ou descritivas da história e da geografia são mais absorvidas por eles. Noto uma certa resistência com as abordagens críticas das ciências humanas. Agora, muitas vezes, sinto uma conexão, percebo que consigo ligar o botão da reflexão no aluno. Numa sociedade de notícias falsas e exaltação da ignorância, é fundamental ensinar sociologia e filosofia. Não basta compreender um conceito, é fundamental pensar criticamente sobre ele. A presença de quatro disciplinas das ciências humanas (geografia, história, sociologia e filosofia) é um avanço que devemos defender.



FICHA DOS LIVROS




Título: Filosofia Compacta para Iniciantes

Edição: 1

Ano: 2020

Número de páginas: 182

ISBN: 978-65-001-1035-7


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Título: Filosofia em Imagens

Edição: 1

Ano: 2020

Número de páginas: 83

ISBN: 978-65-001-2084-4


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