• Chá de Leitura

MUROS INTRANSPONÍVEIS


Sombras de reis barbudos é um clássico da vertente literária chamada de realismo mágico. E, supostamente, um dos melhores romances dessa vertente já escritos no Brasil.

O narrador-personagem, um menino, conta como sua cidade foi, aos poucos, perdendo os direitos mais básicos. Desde que uma grande companhia se instalou na cidade, passou a impor regras de conduta e comportamento, afetando drasticamente a vida do povo. Em pouco tempo, as pessoas foram proibidas de fazer coisas banais, insignificantes. "De um dia para outro, sem nenhum aviso, ficou perigoso até perguntar ou informar as horas a um desconhecido. Muita gente se complicou por se queixar inocentemente do calor; por responder a cumprimentos ou não responder por distração; por se abaixar para apanhar um objeto qualquer na rua, ou por ver um objeto e não se abaixar para apanhá-lo", explica o narrador.

Essa atmosfera de repressão, de sufocamento, é reforçada pelos muros erguidos dentro da cidade. Dificultando o livre trânsito das pessoas e separando as ruas, os muros atestam o poder tirânico da companhia. "Da noite para o dia, eles brotaram retos, curvos, quebrados, descendo, subindo, dividindo as ruas ao meio conforme o traçado, separando amigos, tapando vistas, escurecendo, abafando", diz o narrador.

É interessante que este livro foi publicado inicialmente em 1972, quando vigorava no Brasil a ditadura militar. Por isso, ele pode ser entendido como uma alegoria daquele regime, que suspendeu os direitos civis dos cidadãos, como a liberdade de reunião e de pensamento.




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