• Chá de Leitura

NOS LABIRINTOS DA ALMA HUMANA

Atualizado: 7 de Nov de 2020


Versátil e plástica, Gabriella Gilmore extrai dos dramas humanos a matéria-prima de sua ficção.

Formada em História, Gabriella Gilmore é ux writer, blogueira, escritora e musicista. Desde quando começou a escrever, aos 14 anos, tem se dedicado a gêneros textuais diversos, como a poesia, a crônica e a resenha. É autora de O Diário Idiota de Rafaela, um romance intimista e subjetivo, e coautora de O Divertido Cotidiano vs. Murphy, livro de crônicas que aborda o universo feminino. Acompanhe, a seguir, a entrevista cedida pela autora ao nosso blog.


BLOG > Quando você começou a escrever? O que te motivou?

GILMORE > Que eu me lembre, comecei a escrever aos 10 anos, quando ganhei um diário de aniversário. Naquela época, eu rascunhava coisas de criança mesmo, colava papeis de balas e bombons, copiava poesias que achava bonitas. Sempre tive uma mente agitada, então escrever coisas aleatórias era terapêutico. Só comecei a escrever coisas próprias por volta dos 14 anos, inspirada em filmes e seriados da época, e não parei mais.


BLOG > Além de escritora de ficção, você é ux writer. Como você concilia as duas carreiras e de que forma uma te auxilia no desempenho da outra?

GILMORE > Por enquanto, estou conseguindo conciliar sem crises. Apesar de ambas as áreas trabalharem com escrita criativa, elas são bem distintas. A escrita para a experiência do usuário não tem nada de ficção. Tudo precisa ser escrito pensando no outro e embasado em pesquisas com esses usuários (público alvo). Mas confesso que estou aplicando as técnicas do UX nas minhas literaturas; afinal, entendo que, se estou criando um produto literário, eu preciso entender o que as pessoas gostariam de ler, o que está em alta, o que realmente faria sentido para o momento atual. Alguns autores podem achar meio “vendido” isso que estou dizendo, mas, para alavancar na carreira literária, creio que esse pode ser o caminho. Foi o que comentei contigo sobre um desejo que eu tinha de publicar um livro de poesia mesmo não sendo poeta. Talvez eu o faça no futuro, porque hoje não acredito que teria tanta visibilidade, até porque nem todo mundo lê poesia, e eu não sou famosa. Mas as pessoas leem poemas de artistas que amam, certo? Então é bem por aí.


BLOG > Para você, o que significa ser artista?

GILMORE > Nossa! Que responsabilidade definir isso!! Uma vez escrevi uma frase que dizia o seguinte: “A arte é um ato de congelar momentos, seja de dor, alegria ou angústia. É o que impulsiona o homem sensível a atingir o inalcançável, o perfeito”. O artista é aquela pessoa que vive apaixonada e que imortaliza os sentimentos que transbordam seu ser. Assim nascem as artes. Vejo o artista como um ser humano que nasceu para trazer equilíbrio e inspiração para a sociedade. Imagine o mundo sem arte! Seria tedioso e frio, não é mesmo? Então o artista acaba tendo essa missão de colorir a comunidade em que habita e a vida dos que estão ao seu redor.


BLOG > Em seu romance de estreia, a protagonista da história, Rafaela, se apaixona por um rapaz que conheceu na Internet. Ao longo de dois anos, ela registra em seu diário emoções e sentimentos contraditórios, despertados por aquele romance virtual. Essa história se baseia na realidade? Como ela pode ajudar as pessoas que precisam lidar com as perdas e frustrações de um relacionamento a distância?

GILMORE > A história é inspirada em fatos reais. Eu tracei o perfil da Rafa quando fiquei imersa na Internet jogando RPG no início dos anos 2000. A gente acaba fazendo amigos virtuais e escuta todo tido de história, seja ela verdadeira ou não. E percebi que havia um “padrão”: pessoas se apaixonando pela Internet. Mas era mais que isso, era uma paixão pela ideia de um alguém/relacionamento. E muitas delas tiveram crises emocionais por algo que simplesmente projetaram. Tecnicamente, não era real, entende? E acredito que isso ainda acontece nos dias atuais e vai se perpetuar; afinal, o ser humano é muito criativo e sempre está apaixonado pela ideia de alguém. Não criei a história com intuito de evangelizar as pessoas, mas, de alguma forma, as “experiências” da Rafa acabam abrindo nossos olhos.


"Imagine o mundo sem arte! Seria tedioso e frio, não é mesmo? Então o artista acaba tendo essa missão de colorir a comunidade em que habita e a vida dos que estão ao seu redor."


BLOG > Outro tema subjacente ao romance é o da depressão. A Rafaela sofre desse mal e o enfrenta sozinha, com o auxílio do seu diário. Assim, ela narra para si mesma, diariamente, as próprias emoções, pensamentos, lembranças (mesmo as que ela ignorava, oriundas do inconsciente). Em sua opinião, a escrita serve como um lenitivo para as dores da alma? Que conselho você daria às vítimas da depressão?

GILMORE > Sem dúvida, a escrita e qualquer expressão artística nos ajudam a nos desafogarmos de nós mesmos. Por isso que eu acredito na importância da arte nas nossas vidas. Citando Da Vinci e Lispector na respectiva ordem, A arte diz o indizível, exprime o inexprimível, traduz o intraduzíveleArte não é pureza, é purificação; não é liberdade, é libertação”. E sobre conselho, na verdade eu o daria para a nossa sociedade que ainda demoniza a depressão. Peço que olhem com mais respeito para as pessoas que têm dores na alma. Depressão sem tratamento é tão perigosa quanto uma diabetes e precisa de cuidados. Estar deprimido é silencioso e solitário. E só é solitário porque ainda existem tabus. Então, se você escutar algum amigo sofrendo deste mal, tenha empatia!


BLOG > No ano passado, você e mais três autores publicaram, juntos, um livro de crônicas: O Divertido Cotidiano vs. Murphy. Fale um pouco sobre essa experiência da coautoria.

GILMORE > Na verdade, não foi exatamente uma coautoria. Havia alguns anos que eu tinha o desejo de publicar em livro algumas crônicas que escrevi ao longo dos anos. Quando aconteceu a oportunidade, eu convidei 3 amigos que também escrevem a fazerem parte da publicação. Eu escolhi os textos que tenho como favoritos desses autores e perguntei se eles gostariam de tê-los publicados no Murphy. Você sabe que a nossa comunidade de literatura independente é bem complexa. Então essa valorização de dentro faz toda diferença, e eu morro de orgulho de ler e saber que o Brasil tem muitos escritores incríveis, e que o mundo precisa conhecê-los.


BLOG > Em O Divertido Cotidiano vs. Murphy, o universo feminino é retratado com bom humor sem, contudo, que a reflexão seja ignorada. Essa dimensão filosófica sempre esteve presente nos seus textos?

GILMORE > Eu comentei isso ontem com uma amiga. Que, mesmo escrevendo sobre diversos gêneros, a filosofia está sempre nas entrelinhas. Sou muito observadora, questionadora, tenho uma visão de uma criança sempre com os eternos “porquês”. Mesmo escrevendo algo mais cômico, é um cômico sério. Ah! Ah!


BLOG > Você é uma escritora versátil. Além de ter estreado no gênero do romance, você escreve poesia, contos, crônicas, artigos, resenhas, composições musicais etc. O que te leva a experimentar tantos gêneros textuais e a escrever sobre os mais variados assuntos, como religião, sociedade e arte urbana?

GILMORE > Bom, antes de ser escritora, gosto da ideia de dizer que sou artista. Assim eu não me limito. O experimentar outros gêneros textuais funciona mais como aprendizado mesmo. Claro que a gente acaba se identificando mais com um ou outro estilo, mas acredito que a ousadia nos ajuda a elevar nossa arte. Então sigo sempre curiosa e ousada.


BLOG > Ao compor suas músicas, você se inspira nas suas histórias?

GILMORE > Sim, as histórias me dão a base que preciso para compor. Confesso que a composição musical sempre foi muito desafiadora para mim. Acho bem difícil musicalizar textos. Tive experiências no passado e, em julho deste ano, compus uma música escrita "a sangue" e estou me desafiando a voltar a praticar composições musicais. E o “sangue” foi drama para eu não perder minha essência dramática. Ah! Ah!


BLOG > Você se considera uma autora engajada?

GILMORE > De certa forma, eu acho que sim. Eu poderia me engajar mais, mas luto contra o tempo. Como eu comentei no nosso bate-papo, estou migrando de carreira, saindo da administração para o UX Writing. Então, durante o dia, eu trabalho no escritório e, à noite, administro meus projetos literários e a pós-graduação. Uma loucura!




> Siga a autora no blog Introspectors e no Recanto das Letras.


FICHA DOS LIVROS




Título: O Diário Idiota de Rafaela

Edição: 1

Ano: 2011

Número de páginas: 94


SAIBA MAIS!








Título: O Divertido Cotidiano vs. Murphy

Edição: 1

Ano: 2019

Número de páginas: 88


SAIBA MAIS!




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